Saudação de D. Rui Valério na abertura oficial da Assembleia Geral Internacional da Sociedade de São Vicente de Paulo

Senhor Presidente-Geral Internacional da Sociedade de São Vicente de Paulo,
Senhores Membros dos Órgãos Diretivos,
Caríssimos Vicentinos e Vicentinas,
Minhas Senhoras e Meus Senhores,

É com grande alegria que vos acolho em Lisboa para esta Assembleia Geral Internacional da Sociedade de São Vicente de Paulo.

Sejam todos muito bem-vindos a esta cidade que, ao longo dos séculos, aprendeu a abrir as suas portas ao mundo e a fazer do encontro entre povos, culturas e tradições uma das suas mais belas vocações. Lisboa, que o Papa Francisco, na conclusão da Jornada Mundial da Juventude de 2023, designou como uma «casa de fraternidade» e uma «cidade dos sonhos»[1], deseja continuar a ser um lugar onde cada pessoa se sente acolhida, reconhecida e valorizada.

Esperamos que esta vocação de hospitalidade que caracteriza Lisboa possa também inspirar os vossos trabalhos. Que estes dias sejam ocasião de encontro fraterno, de partilha de experiências, de discernimento e de renovação da missão. A cidade acolhe-vos com gratidão, reconhecendo o bem imenso que a Sociedade de São Vicente de Paulo realiza em tantos países, junto de tantas pessoas e famílias que enfrentam situações de fragilidade, pobreza e exclusão.

Permitam-me uma segunda palavra para sublinhar a oportunidade singular deste momento para a própria Sociedade de São Vicente de Paulo.

Costuma afirmar-se, com razão, que a Doutrina Social da Igreja tem o seu ponto de partida magisterial na Encíclica Rerum Novarum de Leão XIII. De facto, foi esse documento que inaugurou uma nova etapa da reflexão social da Igreja diante dos desafios suscitados pela modernidade e pela revolução industrial.

Mas toda a grande árvore possui raízes profundas.

Rerum Novarum não foi apenas um ponto de partida. Foi também um ponto de chegada. Foi a síntese madura de numerosas experiências de caridade, reflexão e compromisso cristão que, durante décadas, procuraram responder às novas questões sociais que emergiam no mundo.

Entre essas experiências destaca-se, de forma luminosa, a figura do Beato Federico Ozanam.

Diante das profundas feridas sociais provocadas pela industrialização, a primeira resposta dos cristãos foi o socorro aos pobres. Era necessário alimentar quem tinha fome, visitar quem estava abandonado, apoiar quem tinha perdido o trabalho, acompanhar quem vivia sem esperança.

Mas Ozanam compreendeu rapidamente que a caridade não podia limitar-se aos efeitos visíveis da pobreza. Era necessário interrogar também as suas causas mais profundas.

Por detrás das novas formas de exclusão encontravam-se conceções redutoras do ser humano, visto apenas como instrumento de produção; encontrava-se a fragilização da família; encontrava-se o enfraquecimento do sentido transcendente da vida; encontrava-se a perda da consciência da dignidade da pessoa criada à imagem de Deus.

Por isso, ao mesmo tempo que servia os pobres, Ozanam ajudava a lançar os fundamentos daquela reflexão social que mais tarde encontraria expressão sistemática no magistério da Igreja.

É importante que a Sociedade de São Vicente de Paulo nunca esqueça estas suas raízes. A sua identidade não se encontra apenas na assistência aos necessitados, mas também na capacidade de escutar os sinais dos tempos e de discernir, à luz do Evangelho, os desafios que emergem em cada época.

É precisamente neste ponto que esta Assembleia Geral assume uma importância particular.

Tal como a revolução industrial colocou novos desafios ao século XIX, também a revolução digital e o desenvolvimento acelerado da inteligência artificial estão a transformar profundamente a sociedade contemporânea.

Mudam as formas de trabalho. Mudam os modos de comunicação. Mudam as relações humanas. Mudam os processos de decisão. Mudam até as formas de compreender a própria condição humana.

Perante estas transformações, os católicos são novamente chamados a escutar o Espírito Santo e a discernir os caminhos pelos quais Deus continua a chamar a Igreja ao serviço da humanidade.

A primeira Encíclica do Papa Leão XIV oferece-nos, neste contexto, orientações particularmente preciosas.

Numa sociedade frequentemente descrita como «líquida», marcada pela instabilidade, pela fragmentação e pela dificuldade em encontrar referências duradouras, o Santo Padre recorda-nos a importância da verdade como fundamento indispensável da vida pessoal e social[2]. Sem verdade não existe confiança. Sem confiança não existe comunidade. Sem comunidade não existe futuro.

Ao mesmo tempo, o Papa convida-nos a redescobrir a dignidade do trabalho humano[3]. Num contexto em que muitos receiam ser substituídos por sistemas automatizados, torna-se ainda mais urgente afirmar que o valor da pessoa nunca pode ser reduzido à sua utilidade económica.

Por fim, o Santo Padre alerta para a necessidade de proteger a liberdade humana[4]. Num mundo crescentemente condicionado por algoritmos, previsões automatizadas e sistemas de influência invisível, torna-se essencial preservar a capacidade de discernir, escolher e agir responsavelmente.

Estes desafios interpelam diretamente a missão vicentina. Exigem criatividade, coragem, capacidade de inovação e, sobretudo, fidelidade ao Evangelho.

Queridos amigos, o mundo continua a precisar da Sociedade de São Vicente de Paulo. Continua a precisar do vosso testemunho. Continua a precisar da vossa proximidade aos mais pobres. Continua a precisar da vossa capacidade de transformar a caridade em encontro, a solidariedade em fraternidade e a assistência em promoção integral da pessoa humana.

Concluo desejando os maiores êxitos aos trabalhos desta Assembleia Geral. Que estes dias permitam encontrar caminhos renovados para a defesa da dignidade humana e para a construção de uma sociedade mais justa, mais fraterna e mais humana. E que em todas as reflexões, decisões e projetos nunca percamos de vista aquela que é a fonte, a realização e o horizonte da Sociedade de São Vicente de Paulo: a caridade. A caridade que nasce de Cristo. A caridade que vê em cada pobre um irmão. A caridade que transforma o coração daquele que recebe e também daquele que serve.

Muito obrigado.

Ramada Lisbon Hotel, 16 de junho de 2026
† RUI, Patriarca de Lisboa


[1] Francisco, Angelus, 6 de agosto de 2023.

[2] Cf. Leão XIV, Encíclica Magnifica Humanitas, n. 132-147.

[3] Cf. Leão XIV, Encíclica Magnifica Humanitas, n. 148-169.

[4] Cf. Cf. Leão XIV, Encíclica Magnifica Humanitas, n. 170-179.

FOTOS: Diogo Paiva Brandão/Patriarcado de Lisboa

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