Dia Diocesano Vicentino reuniu Vicentinos do Porto na Casa Ozanam

Um dia de celebração, reflexão, testemunho e gratidão, marcado pelo reconhecimento ao Pe. Manuel Martins após 14 anos de missão no Porto

A Casa Ozanam acolheu, no dia 20 de setembro, o Dia Diocesano Vicentino, promovido pelo Conselho Central do Porto da Sociedade de São Vicente de Paulo.

Foi um dia de encontro, celebração, reflexão e partilha, reunindo vicentinos da Diocese do Porto em torno de uma pergunta que permanece tão atual como exigente: o que significa ser vicentino hoje?

A resposta não se encontra apenas na memória do passado, mas na capacidade de olhar para a realidade presente e perceber onde estão hoje as novas formas de pobreza, exclusão e solidão e de que modo a Sociedade de São Vicente de Paulo pode continuar a responder-lhes, fiel ao carisma dos seus fundadores.

O encontro começou com o acolhimento dos participantes, seguindo-se a Eucaristia, presidida por D. Manuel Linda, Bispo do Porto, num momento que colocou a jornada sob o sinal da fé e da missão cristã.

Da reflexão à ação: três olhares sobre a missão vicentina

O tema “Filantropia verso Caridade” abriu um dos momentos centrais do Dia Diocesano Vicentino, com a participação do Dr. Artur Santos Silva e da Enf. Germana Carvalho.

Na sua intervenção, Artur Santos Silva deixou uma expressão que ficou entre as ideias fortes do encontro: “Não daremos apenas peixe a um pobre; ensiná-lo-emos a pescar.”

A frase sintetiza uma preocupação essencial na ação junto dos mais pobres: a ajuda não pode limitar-se à resposta imediata às necessidades. É necessário procurar também promover a pessoa, reforçar a sua autonomia e criar condições para que possa construir o seu próprio caminho.

Dar o “peixe” pode ser necessário e urgente perante uma situação de necessidade. Mas ensinar a “pescar” significa ir mais longe: acompanhar, capacitar e procurar, com a própria pessoa, caminhos que lhe permitam recuperar a autonomia e a dignidade.

Esta perspetiva coloca a caridade perante um desafio permanente: não fazer apenas pela pessoa, mas caminhar com ela.

Uma caridade que chega também às prisões

A reflexão encontrou depois uma expressão muito concreta no testemunho da Enf. Germana Carvalho, ligada à OVAR – Obra Vicentina de Auxílio aos Reclusos.

Partilhando a sua experiência de trabalho vicentino, Germana Carvalho falou da realidade das visitas aos reclusos, mostrando como a missão da Sociedade de São Vicente de Paulo chega também a lugares onde tantas vezes a sociedade tende a esquecer as pessoas.

Nas visitas, a presença assume um significado especial. É estar disponível para escutar, estabelecer uma relação, levar uma palavra amiga e reconhecer a dignidade de quem se encontra privado de liberdade.

O seu testemunho recordou que a pobreza e a exclusão assumem muitas formas e que a missão vicentina exige disponibilidade para ir ao encontro daqueles que nem sempre são vistos.

A experiência da OVAR mostra, assim, uma caridade que não se limita a dar resposta material. É uma caridade feita de presença, relação, escuta e acompanhamento.

A intervenção de Germana Carvalho trouxe para a reflexão uma pergunta essencial: quem são hoje as pessoas que não estamos a ver?

E essa pergunta encontraria eco, pouco depois, na intervenção da Presidente Nacional da Sociedade de São Vicente de Paulo.

Redescobrir Ozanam e olhar para dentro

Foi neste contexto que a Presidente Nacional da SSVP, Fernanda Capitão, apresentou a reflexão “Redescobrir Ozanam e olhar para dentro”.

Partindo da pergunta “Se Ozanam estivesse hoje entre nós, que realidades nos pediria para olhar, que mudanças nos pediria para fazer e onde nos pediria para estar?”, Fernanda Capitão convidou os vicentinos a olhar para a identidade da Sociedade de São Vicente de Paulo no século XXI.

A questão central passou por perceber o que é essencial no carisma de Ozanam e o que precisa de ser renovado.

A Presidente Nacional apontou quatro caminhos: redescobrir, aprofundar, encontrar e transformar.

Redescobrir Ozanam e a ligação entre Vicente de Paulo e Ozanam, regressando às raízes que continuam a dar sentido à missão.

Aprofundar a importância da visita e da relação, da promoção e da autonomia, da caridade e da justiça.

Encontrar os jovens e, sobretudo, aqueles que vivem novas formas de pobreza e que podem permanecer invisíveis aos olhos das estruturas tradicionais.

E transformar, perguntando o que pode uma pequena Conferência fazer de diferente para transformar a realidade local.

A proposta foi muito concreta: escutar, caminhar com as pessoas, servi-las com dignidade e procurar, juntamente com elas, caminhos de transformação.

Neste sentido, as três intervenções da manhã acabaram por se complementar. A expressão de Artur Santos Silva — “não daremos apenas peixe a um pobre; ensiná-lo-emos a pescar” — colocou o desafio da promoção e da autonomia. O testemunho de Germana Carvalho mostrou uma experiência concreta de proximidade junto dos reclusos. E Fernanda Capitão ampliou o olhar, desafiando os vicentinos a pensar no presente e no futuro da missão.

No centro de tudo permanece uma mesma pergunta: como transformar a caridade num verdadeiro caminho de dignidade, fraternidade e esperança?

E a resposta proposta pela Presidente Nacional pode resumir-se numa frase:

“Servir com Cristo, caminhar com os pobres e transformar com esperança.”

São Vicente de Paulo: do passado um presente

O programa prosseguiu com a apresentação do livro “São Vicente de Paulo: do passado um presente”, da autoria do Pe. José Alves, CM.

A publicação constituiu uma oportunidade para regressar às raízes da missão e recordar como a inspiração de São Vicente de Paulo continua a encontrar expressão no serviço aos mais pobres.

O título da obra encaixou, de resto, na própria reflexão do encontro: do passado nasce um presente, mas o presente coloca novos desafios que exigem respostas renovadas.

Depois do almoço, a Dinâmica dos Conselhos de Zona e Obras Especiais, com a apresentação e entrega das árvores, proporcionou mais um momento de partilha e de envolvimento dos participantes.

Um reconhecimento ao Pe. Manuel Martins

A tarde reservava aquele que viria a ser um dos momentos mais emotivos do Dia Diocesano Vicentino.

O momento de animação foi uma homenagem de reconhecimento ao Pe. Manuel Martins, que, depois de 14 anos de missão como Assistente Espiritual do Conselho Central do Porto, se prepara para abraçar uma nova missão na Diocese de Portalegre-Castelo Branco.

Foi um momento vivido com emoção e gratidão.

Ao longo destes 14 anos, o Pe. Manuel Martins cruzou-se com muitos vicentinos. A sua presença fez parte da caminhada de muitos e deixou memórias que permanecem.

Por isso, mais do que uma despedida, o momento foi uma oportunidade para agradecer.

Agradecer a presença, a disponibilidade, a amizade e o serviço prestado ao longo destes anos. Agradecer as palavras partilhadas, os momentos vividos e o acompanhamento da caminhada vicentina.

A homenagem procurou traduzir, de uma forma simples, mas sentida, aquilo que tantas vezes é difícil colocar em palavras: a gratidão de uma comunidade por alguém que fez parte da sua história.

Agora, o Pe. Manuel Martins parte para uma nova etapa. Uma nova missão significa novos rostos, novas comunidades e novos desafios, mas também a continuidade de um mesmo espírito de serviço.

A família vicentina do Porto despede-se, assim, com gratidão, mas também com a certeza de que os caminhos da missão podem separar fisicamente as pessoas sem apagar os laços construídos ao longo dos anos.

Uma missão que continua

O Dia Diocesano Vicentino terminou com uma certeza: a missão continua.

Continua na visita aos pobres, na presença junto dos reclusos, na escuta de quem sofre, no acompanhamento das famílias, na procura de novas respostas para as novas pobrezas e na capacidade de cada Conferência olhar para a realidade do seu território e perguntar: o que podemos fazer diferente?

Continua também na necessidade de abrir as portas aos jovens, de formar melhor os seus membros e de recuperar sempre a inspiração de Vicente de Paulo e de Frederico Ozanam.

Na Casa Ozanam, os vicentinos foram convidados a olhar para o passado, mas sobretudo a olhar para dentro e para o futuro.

Porque redescobrir Ozanam não é apenas recordar uma figura da história da Sociedade de São Vicente de Paulo. É perguntar, hoje, o que faria Ozanam perante as pobrezas do nosso tempo e onde nos pediria para estar.

E talvez a resposta esteja nos quatro verbos que marcaram este encontro:

Redescobrir. Aprofundar. Encontrar. Transformar.

Tudo isto para cumprir uma missão que permanece atual:

Servir com Cristo, caminhar com os pobres e transformar com esperança.

Scroll to Top